Por que cortar carboidratos?

Por que cortar carboidratos?

Uma abordagem evolutiva

Quando as pessoas me perguntam por que eu não como carboidratos (na realidade, eu como um pouco, cerca de 20g por dia), eu sempre recorro à genial metáfora apresentada pelo Dr. Jose Carlos Souto:

  • o Brasil foi descoberto há pouco mais de 500 anos;
  • há 1.000 anos, o mundo vivia a Idade Média;
  • há 2.000 anos, o Império Romano dominava boa parte da Europa, Oriente Médio e África;
  • há 6.000 anos os Sumérios criavam a escrita;
  • há 10.000 anos o homem criava a agricultura.

Ou seja, há 10 mil anos, os homens começaram a comer carboidratos. Isto é, 20 vezes mais tempo do que a descoberta do Brasil. Muito tempo, não? Considerando nossa vida, sim, mas considerando a evolução das espéciesé muito pouco tempo.

Mais alguns dados?

  • os fósseis mais antigos de Homo sapiens (nós) datam de 195.000 anos;
  • estes fósseis já eram anatomicamente idênticos a nós;
  • os 10.000 de história da agricultura são pouco mais de 5% do tempo desde o surgimento do Homo sapiens.

Olhando por este ponto de vista, parece que é pouco tempo, né? Fica pior:

  • os primeiros fósseis de hominídeos datam de 2.500.000 anos;
  • os 10 mil anos de agricultura, ou seja, desde que começamos a comer carboidratos, correspondem a 0,04% desses 2,5 milhões de anos.

Agora começou a ficar difícil de visualizar, né. Imagine então se nós condensássemos os 2,5 milhões de anos de evolução do gênero Homo em um ano: sendo que o dia 1º de Janeiro seria o surgimento do primeiro hominídeo (há 2,5 milhões de anos) e o dia 31 de dezembro seria hoje. Vamos ver como fica:

  • 1º de janeiro – início da evolução dos hominídeos (2,5 milhões de anos);
  • 31 de dezembro, 23:59:59.9 – data presente;
  • 30 de dezembro, 13h – introdução da agricultura (10 mil anos, começo do consumo de carboidratos, apenas integrais);
  • 31 de dezembro, 03h – surgimento das primeiras cidades e introdução da escrita (6 mil anos);
  • 31 de dezembro, 15h – surgimento das civilizações clássicas (Grécia Antiga);
  • 31 de dezembro, 21h – introdução do açúcar na Europa, pelos Cruzados (3 horas antes da meia noite;
  • 31 de dezembro,  23:59:42 – começo da produção de farinha branca refinada em escala industrial (18 segundos antes da meia-noite);
  • 31 de dezembro,  23:59:53 – introdução do xarope de milho de alta frutose, HFCS, utilizado como adoçante em refrigerantes, biscoitos, sorvetes e outras guloseimas (7 segundos antes da meia-noite).

Em outras palavras, como disse o Dr. Souto:

“se a evolução da espécie tivesse ocorrido em um ano, teríamos tido uma dieta por 363 dias e meio e uma mudança radical nas 36 horas finais“.

Pra tornar isto mais visual:

A evolução dos hominídeos e os carboidratos, por FATOPIA.ORG

Considerações

Quer dizer então que não há qualquer indivíduo adaptado ao consumo de carboidratos? Não exatamente. Existe uma probabilidade matemática de que alguns indivíduos já estejam adaptados ao consumo de carboidratos. Provavelmente seja o caso das pessoas que nasçam, cresçam e morram magras e cujos descendentes sejam magros, e que não apresentem resistência à insulina. Tais casos devem existir. No entanto, é extremamente improvável que este seja o caso de alguém obeso, com sobrepeso, ou que apresente resistência à insulina.

A propósito, o período anterior à introdução da agricultura (ou seja, quase 95% da evolução de nossa espécie e 99,96% da evolução dos hominídeos) é chamado de período paleolítico. Por isto, uma das dietas com baixo teor de carboidratos mais famosas é chamada de paleo, ou dieta paleolítica. Esta dieta baseia-se em comer apenas o que possa ser caçado ou coletado (carne, hortaliças e frutas*), mantendo o teor de carboidratos abaixo de 100g, sem qualquer produto de origem agrícola, nem laticínios, afinal os homens das cavernas não criavam gado leiteiro.

Minha dieta não é tão estrita. Prefiro pegar o princípio por trás do paleo e aplicar na minha realidade. Eu como queijo, nata e requeijão, por exemplo e evito comer frutas. Além disso, procuro manter minha contagem de carboidratos em 20g, pois garanto que sempre estarei queimando gordura.


* As frutas do período paleolítico eram muito menores e menos doces do que as frutas de hoje em dia. Se você já viu como são as frutas silvestres, já deve ter percebido que elas nem de perto são do mesmo tamanho ou tão doces quanto as que compramos no supermercado. Isto se deve ao processo de seleção artificial, em que os agricultores selecionam as melhores mudas e cruzam as suas sementes para formar frutas maiores e mais doces (ou seja, com mais açúcar). As únicas frutas que sobraram com pouco açúcar são as frutas vermelhas, o coco e o abacate, e são essas que você deve comer (se for comer frutas).