A maior mentira do século – Parte 3

A maior mentira do século – Parte 3

Cisnes negros e o paradoxo Duncan/Jobs

Um problema nacional significa que coisas ruins acontecem para você e eu. Uma crise nacional significa que uma celebridade foi afetada. – Tom Naughton

Nos capítulos anteriores da série “A maior mentira do século”, você aprendeu que dietas com baixo teor de carboidratos não são novidade, que a noção de que gordura saturada faz mal é baseada em uma pesquisa mal conduzida, com diversos vícios metodológicos e começou a entender alguns desses vícios. Neste capítulo, vamos entender um pouco mais do porquê da teoria de Ancel Keys se consolidar como dogma entre os médicos, e analisar algumas exceções à idéia de que gordura saturada faz mal a você.

O estopim e a escalada

Dwight D. Eisenhower

Como sabemos, em 1953, o bioquímico Ancel Keys publicou um famoso estudo em que cruzou informações sobre mortalidade por doenças cardiovasculares com o consumo total de gordura em seis diferentes países. O resultado do estudo mostrava uma correlação “clara” entre o consumo de gordura e o índice de mortalidade naqueles países. O estudo, à época foi atacado duramente pela falta de rigor científico e pela falta de evidências de que o colesterol pudesse realmente ser a causa de doenças cardiovasculares. No entanto, em 1955, uma pessoa muito famosa teve um ataque cardíaco: o presidente dos Estados Unidos da América, Dwight D. Eisenhower. Estava declarada uma crise nacional.

Eisenhower, no entanto, sobreviveu ao primeiro infarto, governando os EUA até 1961, mas teve outras doenças neste período, incluindo um derrame cerebral, conforme apontam seus registros médicos. Para piorar o quadro, desde seu primeiro infarto, em 1955 até sua morte, em 1969, o ex-presidente teve mais 6 infartos e 14 paradas cardíacas, diversas obstruções intestinais e hipertrofia da próstata. Neste tempo, a mídia começou a falar sobre as “doenças da sociedade moderna” e a teoria anteriormente ignorada de Ancel Keys jutamente com um estudo que mostrava o aumento do consumo de gordura saturada nos EUA nos anos anteriores parecia ser a única explicação plausível para tantos de problemas cardiovasculares e derrames cerebrais. A teoria lipídica, de Ancel Keys –  de que você come gordura saturada, ela eleva o colesterol, e o colesterol forma placas nos vasos sanguíneos (ateroma) e este irá  entupir os vasos – então se consagrou e, ao término do mandato de Eisenhower, já era membro do conselho da American Heart Association (AHA), a associação de cardiologia americana.

Os cisnes negros

Karl Popper

O filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994) costumava usar uma metáfora interessante para exemplificar o pensamento científico. Imagine a hipótese: “todos os cisnes são brancos”. Você elabora esta hipótese a partir do fato de que todos os cisnes que você viu até hoje em sua vida são brancos. Você, como um bom cientista, precisa testar sua hipótese a fim de ter certeza de que ela é válida. Para tanto, você não deve procurar mais cisnes brancos a fim de confirmar sua hipótese; você deve, sim, procurar pelos cisnes negros e tentar a todo custo provar que sua hipótese está errada. Caso você não consiga provar que ela está errada, existe uma grande chance de que esteja certa. No entanto, assim que você encontrar o primeiro cisne negro, sua hipótese deixa de ser válida; afinal, nem todos os cisnes são brancos.

Parece simples, não? Mas nem todo mundo age desta forma. Algumas pessoas elaboram hipóteses e se apegam a elas, ao ponto de passar suas vidas tentando provar que estão corretos. Caso vejam alguma evidência contrária, como um cisne negro, no exemplo de Popper, elas tentam provar que não é um cisne, ou que não é negro. A estas pessoas, chamaremos de maus cientistas. Ancel Keys, é claro, enquadra-se no segundo tipo.

O cisne Eisenhower

Ainda que o caso Eisenhower tenha sido o estopim da escalada de Ancel Keys ao conselho da AHA, o próprio caso desmente sua teoria. Quando Eisenhower teve seu primeiro ataque cardíaco, seu colesterol total era 165mg/dl, sendo que o valor normal é de 120mg/dl até 200mg/dl. Em outras palavras: Eisenhower não tinha o colesterol elevado.

O Paradoxo Francês (e norueguês, e holandês, e suíço…)

No primeiro post da série, vimos o gráfico que Ancel Keys usou para “provar” que sua teoria lipídica estava correta:

No entanto, como o mau cientista que era, Keys deliberadamente ignorou os cisnes negros que pudessem provar que sua hipótese estava errada. Veja como o gráfico fica quando usamos 22 países ao invés de 6:

Bem menos óbvio, não? Na realidade, se analisarmos todos os 22 países, veremos que em alguns países, como a França, a Suíça, a Holanda e a Noruega, apesar de haver um alto consumo de gordura saturada, a mortalidade por doenças cardiovasculares é menor do que na Itália, considerada por Ancel Keys como um país com pouca doença cardiovascular. No entanto, ao invés desses cisnes negros provarem que a teoria lipídica estava errada, eles acabaram se tornando “paradoxos”. No caso mais famoso, o “paradoxo francês”, foi feito outro estudo observacional que atribuiu a baixa mortalidade (“mesmo que com alto consumo de gordura saturada”) ao vinho tinto. No entanto, se você leu os artigos anteriores desta série, você irá perceber que esta é apenas mais uma correlação que foi utilizada para alegar que o caso francês “não era um cisne e nem era negro”.

O Paradoxo Duncan/Jobs

Nesta segunda-feira, 2 de setembro, o ator norte-americano Michael Clarke Duncan, indicado ao Oscar por seu papel no filme “À Espera De Um Milagre” faleceu vítima de complicações decorrentes de um infarto sofrido em julho. Se a teoria lipídica estivesse correta, Duncan deveria ser um voraz consumidor de carne, ovos e gordura animal, certo? Pois é: olha só a campanha publicitária que ele fez em maio (sim, dois meses antes do infarto).

“Virar vegetariano pode prevenir – e às vezes reverter – os maiores matadores da nossa nação, como o diabetes, a obesidade, as doenças cardíacas, o câncer e os derrames. Fortaleça seu caminho para uma saúde melhor: vire vegetariano. – Eu sou Michael Clarke Duncan e eu sou um VEGETARIANO”. Fonte: PETA.

Steve Jobs

Alguém que conheça bem o caso de Duncan poderia afirmar que ele se tornou vegetariano há poucos anos, e que a dieta vegetariana não conseguiu reverter os danos causados por comer carne por um longo período de tempo.

No entanto, há outro caso que desacredita a falácia dita na propaganda do PETA (ver a legenda da foto): Steve Jobs. O gênio fundador da Apple, segundo sua biografia autorizada, era vegetariano desde o começo de sua vida adulta, ainda nos anos 1970, consumia praticamente só produtos de origem vegetal, gorduras vegetais “saudáveis”, e ainda assim teve sobrepeso por vários anos e morreu vítima de um câncer no pâncreas.

Para falar a verdade, Jobs acreditava tão firmemente nessa noção de que a dieta vegetariana pudesse reverter o quadro de seu câncer, que logo que descobriu a doença, ao invés de se submeter a ao tratamento, fez uma dieta baseada em sucos, jejum e lavagens intestinais sem qualquer comprovação científica por nove meses. Segundo o Dr. Ramzi Amir, pesquisador de Harvard, sua escolha por um “tratamento alternativo” o levou a uma “morte precoce e desnecessária”.

Em outras palavras: existem muitos cisnes negros no caminho da teoria que diz que gordura saturada faz mal para nossa saúde e de que vegetais e que carboidratos sem gordura fazem bem. Na realidade, é possível até que a noção vigente, se levada ao extremo como no caso de Jobs, possa levar à morte. A pergunta que fica é: por que o caso Eisenhower foi suficiente para estabelecer teoria lipídica como válida e os casos de Duncan e Jobs não são suficientes para invalidá-la? Quem define o que vale e o que não vale?

Conclusão

Assim como no caso dos espíritos e dos maus humores que referimos  no capítulo anterior da série, a teoria lipídica de Ancel Keys, ou a defesa do vegetarianismo como uma forma de nos tornar saudáveis* se baseiam na mera observação de fenômenos e descartam todas as evidências contrárias a suas teorias, com o intuito de confirmá-las, e não com o intuito o de encontrar a verdade. Desta forma, é fácil concluir que – assim como as superstições – estas teorias são baseadas muito pouco em ciência e em muito em crenças sem qualquer fundamento científico.

No próximo capítulo

No próximo capítulo da série, vamos entender como uma teoria com tão pouca fundamentação científica se tornou a “verdade oficial” reconhecida pela grande maioria dos profissionais de saúde e conhecer quem foi o responsável por isso.

* Apesar de não acreditar no vegetarianismo, ou veganismo como forma de tornar-nos mais saudáveis, eu aceito e respeito quem é vegetariano ou vegano, principalmente se for por ser contrário à violência contra os animais.