A maior mentira do século – Parte 2

A maior mentira do século – Parte 2

Os perigos da pseudociência

Em ciência, poucas coisas são mais perigosas do que noções pré-concebidas. No post anterior da série, vimos que o primeiro livro de dietas que se tem registro defendia uma dieta com baixo teor de carboidratos e que depois da publicação da pesquisa do bioquímico Ancel Keys, iniciou-se uma transformação que culminou no estabelecimento de uma “verdade irrefutável”: gordura saturada faz mal para a saúde (a hipótese lipídica da doença cardiovascular).

Entretanto, as pesquisas de Ancel Keys que levaram à condenação da gordura saturada tinham sérios problemas metodológicos que contaminam a pesquisa de tal forma que tratá-la como verdadeira torna-se praticamente impossível após um estudo mais detalhado. Neste post, vamos falar sobre os tipos de estudo que se usa na área de saúde e aprofundar nos estudos observacionais, a fim de criar subsídios para o entendimento do próximo post.

Estudos observacionais x estudos clínicos

Na área da saúde, existem dois tipos de estudos científicos. Os observacionais, em que o pesquisador seleciona de antemão os dados que deseja comparar e os coleta sem realizar qualquer alteração na dieta, estilo de vida ou prescrição de medicamentos do paciente que está sendo analisado.

Por outro lado, existem os estudos clínicos, em que os pesquisadores selecionam dois ou mais grupos de pessoas estatísticamente idênticos (mesmas faixas de idade, mesma quantidade de pessoas, mesma dieta, mesmo consumo de medicamentos, álcool, cigarro, etc.). Um dos grupos é pesquisado sem qualquer alteração e é chamado grupo controle. Os grupos restantes sofrem alteração de apenas uma das variáveis (aumenta-se o consumo de gordura, por exemplo, diminui-se o consumo de carboidratos, diminui-se a quantidade de calorias, prescreve-se um medicamento, etc.). Após um tempo determinado, os pacientes são examinados e qualquer alteração encontrada é descrita e incorporada no estudo. Entretanto, falaremos sobre os estudos clínicos em outro post. Vamos agora nos ater ao primeiro tipo.

Fazendo-se um paralelo, um estudo observacional seria equivalente a eu pedir a você que conte o número de automóveis da marca Toyota em diferentes bairros da cidade. Você não realizou qualquer alteração no ambiente, apenas contou o número de veículos Toyota. Digamos que você perceba que em um bairro de maior poder aquisitivo, o número de automóveis Toyota é maior do que em um bairro de menor poder aquisitivo, seria seguro afirmar que ter um automóvel Toyota é a causa de uma renda maior? E mais, como você estava procurando pelos carros da Toyota, se eu lhe perguntar agora, quantos carros Hyundai havia em cada bairro, você saberia me dizer?

A resposta lógica é bem simples: carros da Toyota não aumentam sua renda. Ter um Toyota é provavelmente consequência (e não a causa) de uma renda maior (ao menos aqui no Brasil, onde o preço deste tipo de automóvel é exorbitante). Mesmo assim, ter um Hyundai, ou um Honda também poderia ser um indicativo de riqueza. Em outras palavras, podemos afirmar que existe uma correlação entre ter um veículo Toyota e ter uma renda mais elevada. Em nenhuma hipótese podemos afirmar que comprar um Toyota lhe deixa mais rico.

As mentiras que a imprensa conta

Quantas vezes você já leu, viu ou ouviu notícias como estas: “estudo afirma que consumo de ovos pode causar diabetes“, “sódio pode aumentar o risco de infartos“, “consumo de carne vermelha eleva o risco de câncer“, “carne de porco pode levar a infarto do miocárdio“, “psoríase eleva o risco de diabetes do tipo 2” e outras notícias do tipo. Frequentemente escuto reclamações de amigos e parentes dizendo que a cada ano, uma nova pesquisa diz que devemos parar de comer alguma coisa e começar a comer outra coisa e que frequentemente algum alimento que era o vilão anos atrás se torna o mocinho nos dias de hoje.

O fato é que a maioria das vezes em que vemos notícias como estas, estamos vendo o resultado de estudos observacionais e, pior ainda, muitas vezes estes estudos são “viciados”, ou seja, os pesquisadores tinham alguma pré-concepção que afetou o resultado do estudo.

O viés de confirmação

Uma das falhas mais comuns que se comete em ciência e que é inerente à condição humana é o viés de confirmação. Imagine que você acredite em fantasmas. Você está viajando e decide ficar em um albergue para economizar. O albergue é uma linda casa de madeira do início do século XX, mas bem cuidada. No entanto, após se hospedar no albergue, você fica sabendo que no quarto ao lado do seu houve um assassinato 30 anos atrás, quando aquele imóvel ainda era uma casa de família. No meio da noite, você escuta um estalo forte que parece vir do quarto ao lado, se levanta e percebe que não há ninguém no quarto ao lado. Como você acredita em fantasmas, sua explicação para o fato muito provavelmente será: “Meu deus! Tem um fantasma aqui!”. Isto lhe parece ciência? É lógico que não.

A ciência, no entanto, já estudou este fenômeno e a conclusão é bem mais mundana e desinteressante: durante a noite, o clima costuma esfriar. Devido à redução de temperatura, a madeira sofre uma dilatação negativa, ou contração (ou seja, diminui de tamanho), e esta alteração de volume causa os estalos. Não há nada de sobrenatural nisso. No entanto, como nós humanos temos a tendência de procurar nas coisas que observamos uma confirmação para nossas crenças, acabamos por explicar as observações de forma a confirmar nossas hipóteses pré-concebidas. Ou seja, aplicamos um viés de confirmação.

Barbeiro/cirurgião fazendo sangria em paciente

Outro exemplo do viés de confirmação são as sangrias. Na idade média (e até mesmo no século XIX), muitos médicos tinham a noção de que as doenças eram causados pelo desequilíbrio de quatro “humores”, ou seja, quatro tipos de líquidos que circulavam em nosso corpo: a bílis negra, a bílis amarela, a linfa e o sangue. A crença surgiu devido ao fato de que as mulheres todo o mês tinham cólicas, ficavam “mau humoradas” (a propósito, é daí que surgiu a expressão), menstruavam e, após o sangramento, esta condição simplesmente melhorava. Os “cientistas” da época então perceberam uma correlação entre o sangramento e a melhora das mulheres. Logo, o sangramento deveria ser a causa da melhora.

A partir dessa conclusão, generalizaram o conceito: para toda a doença que se apresentava, logo faziam a sangria. Muitas vezes falhavam miseravelmente em curar os pacientes, mas em outros casos (como em pacientes com hipertensão), o sangramento realmente ajudava (pois a diminuição do volume de sangue nos vasos diminuía a pressão arterial). Logo, como o método funcionava em alguns casos, os casos em que falhava eram descartados como desimportantes ou como se estivessem em um estágio tão avançado de maus humores, que já era tarde demais para a sangria fazer efeito. Como você poderá ver em posts futuros desta série, isto continua acontecendo nos dias de hoje e  é resultado do viés de confirmação.

Conclusão

Estudos observacionais são perigosos, pois são válidos apenas para estabelecer correlações. No entanto, muitas vezes acabamos por, mesmo que involuntariamente, atribuir erroneamente relações causais (ou seja, de causa e efeito) a partir de correlações a fim de confirmar nossas pré-concepções, ou seja, aplicamos o viés de confirmação.

No próximo capítulo

No próximo capítulo da série “A maior mentira do século”, vamos entender o que os espíritos e maus humores têm a ver com a pesquisa de Ancel Keys que atribuiu a relação causal de que o consumo de gordura causa problemas cardiovasculares.