Insulina: a raiz de todo o mal – Parte 3

Insulina: a raiz de todo o mal – Parte 3

Por que eu engordo e ele não? Bem-vindo à resistência!

Por que algumas pessoas engordam e outras não? Se você leu o restante da série, Insulina: a raiz de todo o mal, você pode ter ficado com esta pergunta na cabeça. No primeiro e no segundo posts da série, você foi apresentado à insulina e entendeu como ela funciona para nos fazer engordar. No entanto, ainda nos falta explicar por que algumas pessoas engordam e outras não.

Neste post, adaptado do livro Why We Get Fat, de Gary Taubes, vamos entender um pouco mais sobre uma condição que se desenvolve em nossos organismos quando consumimos carboidratos em excesso por muito tempo.

Ao falar sobre o tema, o autor faz a seguinte proposição:

Se a insulina faz as pessoas engordarem, porque ela torna apenas alguns de nós gordos? Todos secretamos insulina, afinal, e mesmo assim muitos de nós são magros e continuam magros pela vida inteira. Esta é uma questão de natureza – nossa predisposição genética – não são a nutrição ou aspectos da dieta e/ou estilo de vida que disparam esta natureza.

A resposta para esta pergunta deriva, segundo o autor, do fato de que “os hormônios não trabalham no  vácuo, e a insulina não é exceção”. O efeito de um hormônio em qualquer tecido depende de uma série de fatores, tanto internos, quanto externos às células (lembre-se do LPL e do HSL que apresentamos no post anterior da série). Estes fatores intra e extracelulares tornam o efeito da insulina diferente dependendo da célula, do tecido e até mesmo do estágio de nossa vida ou desenvolvimento.

A insulina pode ser considerada como o hormônio que determina como os combustíveis são distribuídos por nosso corpo. Após uma refeição, a insulina e diversas enzimas que ela influencia (como o LPL e o HSL) determinam em que proporção e para que células os diferentes nutrientes serão enviados, quanto desse combustível será queimado, quanto será armazenado e como isto irá mudar ao longo do tempo.

 

Imagine um indicador de combustível como o da foto acima, em que um dos lados tem um “E”, que significa Energia, e o outro tem um “G”, que significa Gordura. Se o ponteiro se posiciona à direita (em direção ao “G”),  devemos entender que a insulina está enviando quantidades desproporcionais das calorias que você consome para serem armazenadas como gordura, ao invés de serem usadas como energia para seu corpo. Sendo assim, podemos dizer que você tem tendência a engordar. Além disso, você terá menos energia disponível para fazer atividade física; ou seja, você também tem tendência a ser sedentário. Se você não quiser ser sedentário, você terá que comer mais, a fim de compensar a perda das calorias que são transformadas em gordura. As pessoas que tem obesidade mórbida são aquelas que estão do lado “G” do indicador.

No entanto, se o ponteiro se posiciona no lado oposto do indicador (em direção ao “E”), você está queimando as calorias que você ingere como combustível de maneira desproporcional. Você tem energia suficiente para fazer exercícios e muito pouco desta energia será armazenada como gordura. Você será magro e ativo e comerá em moderação. Quanto mais você aponta na direção do “E”, mais energia você tem para atividade física e menos será armazenado como gordura (ou seja, mais magro você será). Deste lado do espectro estão os maratonistas.

Ok, se o “ponteiro” da minha insulina aponta para o lado “E”, eu emagreço, se aponta para o lado “G” eu engordo. Mas, como a posição do ponteiro é determinada?

À primeira vista, poderíamos pensar que quanto mais insulina secretarmos, mais gordos ficaremos. No entanto, não é bem assim que as coisas funcionam. Esta é parte da resposta, mas tem muito mais a ver com a consequência do problema do que com a causa.

Se diferentes pessoas comerem a mesma quantidade de carboidratos, algumas pessoas secretarão mais insulina do que outras e terão uma maior predisposição a armazenarem mais energia como gordura do que deixar disponível para ser gasta em atividade física. Seus corpos trabalham para manter o nível de açúcar no sangue sob controle (afinal, muito açúcar no sangue é tóxico), e, conforme explicamos no post Insulina, Gatos e Darth Vader, se for necessário para isto aumentar nossa massa gordurosa, a insulina vai fazê-lo.

No entanto, outro fator importante nesta equação é o quão sensível à insulina nossas células são e o quão rapidamente elas se tornam insensíveis em resposta à insulina secretada, condição esta chamada de “resistência à insulina“.

Quanto mais insulina secretarmos, maior a probabilidade de que nossas células tornem-se resistentes à insulina. Assim como um alcoólatra precisa de quantidades muito maiores de bebida para ficar alcoolizado, uma pessoa resistente à insulina precisa de quantidades muito maiores de insulina para manter o nível de açúcar sob controle.

Outra forma de pensar neste problema é que as células têm uma forma de decidir que não querem receber mais glicose do que já recebem (afinal, glicose em excesso faz mal para as células também) e, para isto, elas tornam mais difícil o trabalho da insulina de retirar a glicose da corrente sanguínea.

O “problema (ou a solução)”, como coloca Taubes, é que o pâncreas responde à quantidade de açúcar elevada no sangue injetando ainda mais insulina. O resultado deste processo é um ciclo vicioso: quando muita insulina é secretada (em resposta à ingestão de carboidratos de fácil digestão, como amido e açúcar), nossas células têm a tendência de rapidamente tornarem-se resistentes à insulina (especialmente as células musculares), pois elas já tem glicose suficiente.

Além disso, enquanto as células resistentes “não querem” receber mais glicose e seu pâncreas ainda está secretando mais insulina para remover a glicose do sangue, seu fígado continua transformando glicose em gordura e a insulina continua armazenando-a em suas células gordurosas (a não ser que elas também estejam resistentes à insulina). Em outras palavras, durante este processo, a insulina trabalha para lhe deixar mais gordo.

Para somar a este cenário, para cada célula e tecido de nosso corpo, a velocidade em que as células ficam resistentes à insulina é diferente. Se suas células musculares são mais sensíveis (isto é, menos resistentes) à insulina, elas vão “capturar” mais glicose do sangue e você se manterá magro. No entanto, se suas células de gordura são mais sensíveis, elas vão armazenar mais energia na forma de gordura (a fim de eliminar a glicose) do que seu corpo consegue gastar (e aí você engorda).

Por fim, se imaginarmos que nossas células são organismos vivos e que também sofrem o proceso de seleção natural, pode-se dizer que as células resistentes à insulina são melhor adaptadas a um ambientem em que a glicose é abundante e, por isto, ao longo do tempo, elas irão se reproduzir como células menos sensíveis à insulina. Ou seja, à medida que o tempo passa, você vai se tornando cada vez mais resistente à insulina.

Somando-se a isto o fato de que as células musculares têm uma tendência maior a se tornarem resistentes à insulina do que as células de gordura, teremos então a explicação para o fato de pessoas que são magras na juventude engordarem ao longo do tempo.

O conhecimento tradicional nos diz que ao longo do tempo, nosso metabolismo basal vai ficando cada vez mais lento e, por isto, queimamos menos energia à medida que envelhecemos. No entanto, provavelmente os defensores desta visão estão invertendo a causa e a consequência: é mais provável que nossos músculos vão se tornando cada vez mais resistentes à insulina, deixando uma parte maior da energia que consumimos ser convertida em gordura para ser armazenada. Isto então deixa menos energia disponível para consumirmos e, por isto, nosso metabolismo desacelera.

Ou seja, como diz Taubes:

O que parece ser a causa de engordar (a redução da velocidade do nosso metabolismo) é na verdade um efeito. Você não engorda porque seu metabolismo desacelera; seu metabolismo desacelera porque você está engordando.

Você deve estar se perguntando agora: “como posso evitar a resistência à insulina?“.

A resposta é simples: coma menos carboidratos, afinal, todo o carboidrato que ingerimos (à exceção da fibra) torna-se glicose em nosso sangue e quanto mais glicose, mais insulina secretamos e mais nossas células ficam resistentes a ela. Se simplesmente ingerirmos menos carboidratos, a taxa de glicose no sangue diminuirá e, por consequência, o nível de insulina no sangue também será reduzido. Desta forma, os efeitos da insulina ficam atenuados e você voltará a queimar gordura. É importante salientar que quanto mais resistente à insulina você for, menos carboidratos poderá comer e que quanto menos carboidratos você comer, mais rápido irá emagrecer.

Obs: sempre que fizer qualquer alteração em sua dieta, faça com o acompanhamento de um profissional de saúde. Mesmo que ele não concorde com sua dieta, ele poderá solicitar exames e você e o profissional poderão acompanhar a evolução de sua dieta.