Insulina: a raiz de todo o mal – Parte 1

Insulina: a raiz de todo o mal – Parte 1

A função da gordura

Agora que já contei minha história mais de uma vez e demonstrei que existem estudos que demonstram que o nível de atividade física não é determinante para a perda de peso,  vamos falar sobre o que realmente faz diferença: a “raiz de todo o mal”, a INSULINA.

Nesta série de posts, vamos discutir um pouco de endocrinologia e biologia básicas, com base no livro Why We Get Fat, de Gary Taubes. O assunto pode ser um pouco espinhoso, mas uma vez que você preste bem atenção, você vai entender praticamente tudo o que você precisa saber para entender porque as pessoas engordam e o que devemos fazer para combater a obesidade.

Tudo o que vamos falar se baseia em pesquisas científicas publicadas entre 1920 e 1980 e que não são consideradas como tópicos controversos na literatura medica. O grande problema é que a maioria das “autoridades” em obesidade dos últimos 50 anos achavam que sabiam o que tornava as pessoas gordas e simplesmente ignoraram (conscientemente ou não) os fatos científicos de que vamos falar.

As primeiras perguntas que me vêm à mente são:

  1. Por que a gente armazena gordura?
  2. Sim, precisamos de um pouco de gordura pra nos manter aquecidos e proteger órgãos vitais de impactos. Mas por que o excesso?
  3. Por que a gordura tende a ficar localizada em alguns pontos e em outros não?
  4. Por que eu engordo e algumas pessoas não?

A maioria dos especialistas acreditam (e talvez você tenha sido educado pensando que se tratava de verdade incontestável) que a gordura armazenada no corpo é uma espécie de aplicação de longo prazo, que nosso corpo guarda para sobreviver quando passarmos fome, ou fizermos uma dieta, exercícios ou ficarmos presos em uma ilha deserta. Ou seja, algo como um fundo de aposentadoria que possa nos prover sustento quando deixarmos de ganhar dinheiro (no caso nutrientes) trabalhando (ou seja, comendo).

No entanto, por mais que isto tenha sido ensinado para nós como verdade, dados científicos da década de 1930 nos mostram que esta ideia não é nem remotamente precisa. Sabe-se que de fato a gordura está continuamente entrando e saindo das células de nosso tecido adiposo (gordura corporal), circulando por todo o corpo para ser usada como combustível, e o que sobra é retornado às células adiposas (ou seja, volta a ser estocado). Este processo acontece mesmo que não tenhamos comido ou nos exercitado recentemente.

Mesmo que durante um período de 24 horas, a gordura armazenada em nossas células provenha uma considerável parte do combustível que nossas células queimam para gerar energia, os “especialistas” cismam em nos dizer que os carboidratos (amido e açúcares) são a “fonte de energia preferida de nosso corpo” (o que é simplesmente um erro).

O motivo pelo qual eles dizem isso é a forma pela qual nosso corpo controla os níveis de açúcar no sangue após uma refeição. Se você ingere muitos carboidratos (o que a maioria das pessoas faz), suas células terão muito mais carboidratos para queimar antes de queimarem gordura.

Em outras palavras: quando os carboidratos são digeridos, eles são transformados em um carboidrato mais simples, chamado glicose, vulgarmente conhecida como o açúcar no sangue (a frutose é um caso a parte, mas não menos preocupante, falaremos sobre isto no futuro) e a gordura é quebrada em moléculas menores, chamadas ácidos graxos, que também circulam pela corrente sanguínea.

Como é de conhecimento comum, o excesso de glicose no sangue é diretamente relacionado com o diabetes, por exemplo, e tem efeitos danosos ao nosso corpo, como o comprometimento de vasos sanguíneos (angiopatia), distúrbios nos rins (nefropatia), problemas de visão (retinopatia), problemas no sistema nervoso (neuropatia) como formigamentos, problemas de pele (como lesões ulcerosas nos pés e pernas) e até mesmo levar à necessidade de amputação de membros.

Ou seja, a glicose no sangue é tóxica e nosso corpo precisa “se livrar dela” o mais rápido que puder. Para fazer isto, nosso pâncreas passa a produzir a insulina, um hormônio que tem várias funções, mas cujo principal papel é manter o nível de açúcar no sangue sob controle. Na verdade, o açúcar no sangue é tão nocivo que nosso corpo começa a secretar insulina (produzir e injetar no sangue) até mesmo quando pensamos em comer carboidratos. Quando a glicose da refeição começa a entrar em nossa corrente sanguínea, mais insulina ainda é secretada.

A insulina então sinaliza às células do corpo para aumentar a velocidade em que elas consomem a glicose do sangue. Algumas células passam então a usar a glicose como fonte de combustível, enquanto dois tipos de célula específicos passam a armazená-la para uso futuro: as células musculares (e o fígado) transformam a glicose em uma molécula chamada glicogênio e as armazenam; as células de gordura a transformam então em uma molécula chamada glicerol e então estocam este glicerol para uso futuro. Como parte deste processo de regulação do açúcar, o fígado passa também a converter parte da glicose do sangue em gordura e devolvê-la ao sangue.

À medida que o nível de açúcar no sangue passa a diminuir (e o nível de insulina junto com ele), mais e mais gordura armazenada em nosso corpo passa a ser liberada das células adiposas (ou seja, de gordura) e a ser usada como fonte de energia. Em outras palavras: enquanto houver muito açúcar no sangue (e este açúcar vem dos carboidratos), o corpo PARA de consumir gordura. Além disto, o corpo passa a transformar açúcar em gordura para poder estocá-la nas células gordurosas. E tudo isto ocorre para “limpar” do sangue os níveis tóxicos de glicose.

Fazendo uma analogia simples, em condições normais, nossa gordura corporal não funciona como uma poupança de longo prazo, como alguns especialistas sugerem, mas sim como sua carteira. Nós sacamos dinheiro no caixa eletrônico (comemos) e então guardamos na carteira (células de gordura) para ir gastando ao longo do dia (ou de alguns dias).

Mas como esta gordura é armazenada?

A gordura em nosso corpo é armazenada na forma de triglicerídeos, ou seja: uma molécula composta por três ácidos graxos ligados por uma molécula de glicerol. O glicerol (C3H8O3), por sua vez, é criado quando a molécula de glicose (C6H12O6) é “quebrada” e “remontada” como glicerol.

Em outras palavras: quanto mais carboidratos, mais glicose e mais insulina. Quanto mais glicose e insulina, mais glicerol. Quanto mais glicerol, mais nossas células gordurosas podem estocar triglicerídeos (ou seja, gordura). Quanto mais gordura armazenada, mais gordos ficamos.

Em resumo:

  1. Nosso corpo armazena gordura como uma forma de se nutrir durante o tempo em que não estamos comendo, da mesma forma que guardamos o dinheiro na carteira para usarmos quando não estivermos próximo a um caixa eletrônico ou em um estabelecimento que não aceite cartão de débito.
  2. Quando você ouvir alguém falar que “os carboidratos (ou seja, a glicose) são a fonte de combustível preferida de nosso corpo”, saiba que na realidade a glicose não é a “fonte preferida” e, sim, a que mais causa prejuízo e que, por isto, nosso corpo precisa usá-la primeiro (a fim de se livrar de uma quantidade tóxica de açúcar no sangue).
  3. Quando nosso corpo queima açúcar (que vem dos carboidratos), ele para de queimar gordura, mas não para de armazenar gordura. Ou seja: quanto mais carboidratos você comer, mais gordo você vai ficar.

Esses três pontos devem responder à primeira pergunta “por que a gente armazena gordura?” e sugerir um caminho de resposta para a segunda pergunta “por que o excesso de gordura?”.

No próximo capítulo da série:

Por enquanto, falamos do lado bom da insulina no corpo: reduzir os níveis tóxicos de açúcar no sangue. Falamos também de dois efeitos colaterais da insulina: suspender a queima de gordura e causar o aumento da quantidade de matéria-prima que nosso corpo usa pra produzir a gordura.

No próximo capítulo vamos entender um pouco mais por que engordamos em excesso e como é feita esta transformação de glicose em gordura.