Mito: a obesidade é resultado da falta de atividade física

Mito: a obesidade é resultado da falta de atividade física

Certamente você já ouviu esta teoria:

Nos últimos 100 anos, a obesidade cresceu como nunca. Tal crescimento se deve principalmente ao aumento do sedentarismo. Há um século atrás, as pessoas não tinham automóveis, nem televisores, nem computadores, nem videogames, e por isto, se fazia muito mais exercício. Se formos mais além, até os tempos primitivos, então, notaremos que os seres humanos faziam muito mais exercício ainda, pois tinham que caçar, pescar ou coletar o próprio alimento. Fazendo exercício, gastavam mais calorias por dia e, assim, mantinham-se magras.

Faz todo o sentido, não? Bem… faria, se a causa da obesidade fosse o balanço calórico (quantidade de energia que entra x quantidade de energia que sai). No entanto, estudos recentes (em especial, um que foi publicado anteontem, 25 de julho de 2012) demonstram que a teoria acima não é nada mais do que especulação sem fundamento científico.

Os pesquisadores, liderados por Herman Pontzer, realizaram um estudo em que analisaram indivíduos de ambos os sexos da tribo Hadza, da Tanzânia, uma tribo que vive basicamente de caça e coleta. A equipe realizou uma análise comparativa entre as populações da tribo Hadza (Hunter-Gatherer, no gráfico abaixo), agricultores de subsistência (Farming, no gráfico) da Nigéria, Gâmbia e Bolívia e indivíduos urbanos ocidentais (Western) dos EUA, de diversos países da Europa, e também indivíduos urbanos de regiões de economia de mercado (Market), que incluem os indivíduos ocidentais somados de indivíduos da Síbéria e da Bolívia (obtidos em análises independentes, mas com a mesma metodologia).

Os pesquisadores compararam informações como o gasto total diário de energia (TEE), uma aproximação da taxa de metabolismo basal (BMR) obtida a partir da taxa de metabolismo em repouso (RMR) e a distância percorrida por cada indivíduo (medida a partir de um aparelho de GPS que os pesquisadores prenderam na cintura dos indivíduos), a massa corporal (vulgarmente chamada de peso corporal), a massa de gordura corporal, a massa magra (FFM) e o nível de atividade física (PAL = TEE / BMR).

Com o cruzamento destes dados, os pesquisadores chegaram a resultados que contrariam o senso comum:

Comparações por indivíduo de TEE e FFM

No gráfico acima (apresentado em escala logarítmica para tornar os dados lineares), fica bem clara a correlação entre a quantidade de massa magra (FFM) dos indivíduos e o gasto total diário de energia (TEE).

Estes dados não são por si só surpreendentes, qualquer fisiculturista sabe que quanto mais músculo tivermos, mais energia gastamos. O que me surpreende é que quando os pesquisadores comparam as médias das populações entre o TEE e a massa total (ou seja, incluindo a massa de gordura), os dados não sofrem alterações significativas:

Comparação das populações entre TEE e massa corporal

Em outras palavras, o gasto calórico da média dos indivíduos urbanos que pesam 100kg é de aproximadamente 3900kcal, enquanto o gasto calórico diário da média dos indivíduos caçadores-coletores da tribo Hazda que pesam em torno de 50kg é aproximadamente de  1900kcal (convertendo os logarítmos).

Em outras palavras: um indivíduo que vive em uma cidade, que teoricamente teria acesso a meios de locomoção automatizados, televisão e computador, que compra seu alimento no supermercado e pesa 100kg gasta 2000kcal a mais por dia do que um caçador-coletor de uma tribo primitiva da África, que precisa caçar seu alimento e se locomove exclusivamente a pé.

Reforçando a ideia de que não há uma correlação clara entre o nível de atividade física e a obesidade, quando os pesquisadores cruzam o percentual de gordura corporal com o nível de atividade física (PAL), os dados ficam simplesmente caóticos:

Percentual de gordura x Nível de atividade física

O que se pode perceber, sim, é que os indivíduos do sexo feminino tendem a ter um percentual de gordura maior do que os do sexo masculino, independentemente do nível de atividade física. Pode-se perceber também que não há qualquer relação consistente entre o percentual de gordura e o nível de atividade física, pois enquanto na população caçadora-coletora, o percentual de gordura tende a cair à medida que aumenta o nível de atividade física, nas demais populações (à exceção dos homens ocidentais), quanto maior o nível de atividade física, maior o percentual de gordura.

A conclusão dos pesquisadores foi:

Like other complex, continuous traits (e.g., stature), environment can clearly influence TEE, as is evident in the elevated energy expenditures of traditional farmers (Table 1). Nonetheless, TEE is remarkably similar across a broad, global sample of populations that span a range of economies, climates, and lifestyles (Fig. 12). Not only is TEE statistically indistinguishable between Westerners and Hadza foragers, but the range of TEE within Western, foraging, and farming populations largely overlap, both at the individual and population levels (Table 1Fig. 12). We hypothesize that TEE may be a relatively stable, constrained physiological trait for the human species, more a product of our common genetic inheritance than our diverse lifestyles. A growing body of work on mammalian metabolism is revealing that species’ metabolic rates reflect their evolutionary history, as TEE responds over evolutionary time to ecological pressures such as food availability and predation risk[49][50]. In this light, it is interesting to consider human TEE as an evolved trait shaped by natural selection. Humans are known to have greater TEE than orangutans [50], a closely related ape, but have low TEE compared to other eutherian mammals [50][51]. Data from other primate species are needed to fit the human metabolic strategy into a comprehensive evolutionary context.

Traduzindo para o português e quebrando em parágrafos para facilitar a leitura:

Como outras características complexas e contínuas (como a estatura), o ambiente pode claramente influenciar o gasto total de energia diário (TEE), como é evidente no elevado consumo de energia dos agricultores tradicionais. Entretanto, o TEE é notadamente similar em uma amostra larga e global de populações que abrangem uma gama de economias, climas e estilos de vida. Não somente o TEE é estatisticamente indistinguível entre ocidentais e os Hadza, mas os intervalos de TEE nas populações ocidental, tribal e agricultora se sobrepõem em vários momentos, tanto no nível individual, quanto no nível populacional.

Nossa hipótese é de que o TEE pode ser uma característica fisiológica relativamente estável e pouco variável para a espécie humana, se tratando mais de um produto da nossa herança genética comum do que dos nossos estilos de vida diversos. Um número cada vez maior de pesquisas sobre  o metabolismo de mamíferos vem revelando que as taxas metabólicas das espécies refletem seu próprio histórico evolutivo, já que o TEE responde em tempo evolutivo a pressões ecológicas como a disponibilidade de comida e o risco de predação.

Sob esta ótica, é interessante considerar o TEE humano como uma característica evolutiva moldada pela seleção natural. Humanos são conhecidos por terem um TEE maior do que orangotangos, primatas de parentesco próximo a nós, mas têm um TEE baixo quando comparado a outros mamíferos placentários. Dados de outras espécies primatas são necessários para encaixar a estratégia metabólica humana em um contexto evolutivo complexo.

Conclusão

A comparação entre diversas populações demonstra que a atividade física e o percentual de gordura corporal não são variáveis correlacionadas. O gasto calórico diário do ser humano é muito provavelmente apenas uma característica dos indivíduos, assim como a estatura, e não explica o desenvolvimento da obesidade.